O Fórum Permanente de Estudos Clássicos, Direito e História da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ), o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) e o Centro Cultural do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro (CCPJ-RJ) realizaram, nesta terça-feira (3), o programa Literarius, que teve como tema Roma (SÉC. II – III): Humor, Crítica e Fantasia nas obras de Apuleio e Luciano.
O evento aconteceu no auditório da Mútua dos Magistrados.

Debatedor
Para o debate, o evento recebeu o presidente do Fórum Permanente de Estudos Clássicos, Direito e História, doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em Direito pela Universidade Veiga de Almeida (UVA), desembargador Carlos Gustavo Direito, que declarou: “Então, por que ainda é interessante ler e estudar os autores antigos? Por que Platão ainda nos diz muita coisa? É porque a natureza humana não mudou, é a mesma. Recentemente, só fazendo essa breve introdução, nós lemos nos jornais, nas páginas policiais, verdadeiras tragédias, tragédias gregas que estão narradas num livro como Medeia. Recentemente, teve uma tragédia bárbara de um pai que matou os filhos para punir a mulher. Então, a gente pode ver isso dentro de uma tragédia, porque a natureza humana não mudou nesses últimos 2.700 anos. Só que agora nós estamos lendo com o olhar do século XXI, tendo tido contato com outras coisas que aqueles intérpretes daquela época, do século XVIII, XIX, enfim, não tiveram. Então, me parece bem interessante, por exemplo, a leitura que a Emily Wilson fez da Ilíada e da Odisseia, que é uma leitura que questiona a posição da mulher naquelas obras. É uma leitura que eu poderia dizer até feminista. E, por incrível que pareça, ela é a primeira mulher que traduz as duas obras para a língua inglesa, isso no século XXI, uma obra que foi produzida no século VIII antes da nossa era. Então, ainda tem muito trabalho a ser feito na literatura antiga, muita forma de recepcionar.”

Palestrantes
A professora associada de Língua e Literatura Grega na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutora em Letras Clássicas pela UFRJ Tatiana Ribeiro palestrou sobre o tema: “Segunda Sofística, entendemos o fenômeno literário e social que, sob o Alto Império, nas províncias de língua grega, consistiu na multiplicação de sofistas, no sentido de professores de retórica, oradores e figuras públicas. A Segunda Sofística não se limitava à admiração pelo passado e pelas funções oficiais exercidas pelos sofistas. Ela comportava também formas de devoção íntimas e exacerbadas, experiências de misticismo, um modelo de holy man dotado de poderes sobrenaturais, toda uma cultura filosófico-religiosa, relações do platonismo com o judaísmo e o cristianismo e ainda uma prática literária rica e diversificada que se estende para além do discurso retórico: a poesia, a autobiografia, a epistolografia, a narração dos sonhos, o romance. Ele está fazendo uma associação, uma relação entre a Segunda Sofística e um terceiro momento da sofística na Antiguidade Tardia. Assim, como representante dessa Segunda Sofística, Luciano é também um polímata, um homem de muitos saberes e um polígrafo de escritos de gêneros distintos.”

O professor adjunto de Latim do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas da Universidade de Brasília (UNB) e doutor em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo (USP) Gilson Charles dos Santos enfatizou: “Na verdade, a recusa à narrativa épica é homérica. Não é um fenômeno que nasce com a pólis. Nós, que já estamos há alguns anos lidando com letras clássicas e temos interesse por literatura clássica, já sabemos que é a recusa a Homero. Vem, pelo menos, desde o período helenístico. Penso aqui nos poetas líricos Calímaco, depois, entre os romanos, Catulo e Horácio. Então, é a recusa à poesia épica. Não é, na verdade, uma recusa só a Homero, é uma recusa a um tipo novo de visão de mundo que surge por conta do surgimento não só da cultura escrita como uma prática social disseminada, mas também como uma forma de se mostrar como uma cultura letrada, diferentemente da época homérica, que é, sobretudo, um tipo oral de produção que circula socialmente. Essa seria, basicamente, uma das formas de se interpretar, genericamente, O Asno de Ouro. Na língua latina, nós temos apenas dois exemplares desse gênero específico de romance, sendo o único que chega completo aos nossos dias O Asno de Ouro. Ele é composto essencialmente de 11 livros.”

Fotos: Diego Antunes
3 de março de 2026
Departamento de Comunicação Institucional (DECOM)