O Fórum Permanente de Estudos Clássicos, Direito e História da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ), o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) e o Centro Cultural do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro (CCPJ-RJ) realizaram, nesta segunda-feira (25), o programa LiterarIUS, que teve como tema Roma Imperial: De Justino a Juliano: Um Diálogo com a Sociedade Civil.
O evento aconteceu no auditório da Mútua dos Magistrados.

Debatedor
Para o debate, o evento recebeu o presidente do Fórum Permanente de Estudos Clássicos, Direito e História, doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em Direito pela Universidade Veiga de Almeida (UVA), desembargador Carlos Gustavo Direito, que declarou: “Esse início do cristianismo é extremamente importante para a garantia da dignidade do ser humano. Independentemente de ser cristão ou não, todo ser humano deve ser julgado como igual. O que não se justifica, hoje, é uma postura apologética no mundo moderno, porque não há perseguição aos cristãos nos moldes daquele período. O que vemos, muitas vezes, especialmente nos debates virtuais, são pessoas assumindo posições radicalizadas e entrando em disputas de radicalismo. Quando voltamos às fontes originárias, entendemos por que a apologética era necessária naquele momento e qual foi a sua importância, inclusive na defesa da própria condição humana. Isso não justifica, porém, a reprodução dessa lógica nos tempos atuais.”

Palestrantes
O professor de Patrologia e Cristologia no Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e doutor em Ciência e Teologia Patrística pelo Institutum Patristicum Augustinianum, padre André Luiz Rodrigues da Silva, palestrou sobre o tema: “A liderança cristã percebeu que a chegada de Justino à comunidade e sua inserção no processo de promoção da educação da fé enriqueciam e amadureciam a demonstração da doutrina cristã, muito mais do que a colocavam em risco. Justino, ainda pagão, sabia onde os cristãos se reuniam em Roma e buscou acolhimento dentro daquela comunidade. Não havia, naquele contexto, um princípio de clandestinidade ou bloqueio entre cristianismo e paganismo; pelo contrário, havia diálogo e promoção mútua. O aprimoramento dos ministérios eclesiásticos passa também por uma liderança não clerical. Justino é considerado o principal autor leigo do cristianismo antigo, responsável por uma obra vasta e impactante. Além de colaborar para a criação da primeira escola filosófica cristã em Roma, possivelmente também em Éfeso, escreveu textos que chegaram até nós, como as Apologias e o Diálogo com Trifão. Há uma forte hipótese de que as duas apologias compunham originalmente uma única obra, posteriormente dividida em dois manuscritos distintos. Juntas, elas revelam uma estrutura rígida e comum, conhecida pela retórica pagã nos tribunais de apelação apologética, o que reforça sua autenticidade e importância para além dos muros da comunidade cristã.”

O professor titular do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu Nacional da UFRJ e doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), André Chevitarese, enfatizou: “Quero trazer algumas reflexões sobre a obra Contra os Galileus, de Juliano. A proposta é pensar como chegamos ao século IV partindo do século I. Muitas vezes, nos aproximamos do cristianismo primitivo pelos Evangelhos e pelo Novo Testamento, mas a questão aqui é compreender os caminhos que levaram a essa transformação histórica. Para isso, proponho quatro grandes linhas de análise, envolvendo religião, política e literatura, que ajudam a entender como chegamos ao período de Juliano. A primeira delas surge ainda no século I, a partir da comparação entre Jesus e Paulo. Jesus aparece como uma liderança popular de resistência ao Império Romano, enquanto o material paulino revela uma proposta mais próxima das estruturas imperiais romanas. Assim, elementos como a patronagem e o sistema escravista não se tornam grandes questões para Paulo, que aceita dialogar com essas estruturas inimperiais, responsáveis por instaurar diferenças sociopolíticas e econômicas dentro das próprias comunidades cristãs. Surge, então, já no século I, uma tensão entre diferentes caminhos a serem seguidos pelo cristianismo.”

Fotos: Diego Antunes
25 de maio de 2026
Departamento de Comunicação Institucional (DECOM)