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EMERJ promove o evento Revisitando Cícero II

Ícone que representa audiodescrição

O Fórum Permanente de Estudos Clássicos, Direito e História da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ) realizou, nesta segunda-feira (10), o evento Revisitando Cícero II.

O encontro, promovido em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), o Programa de Pós-Graduação em Metafísica (PPGMETA) da UnB, a UNESCO Chair e Archai e o Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), aconteceu presencialmente no Auditório Desembargador Paulo Roberto Leite Ventura, com transmissão via plataforma Zoom, tradução simultânea e tradução para a Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Abertura

A abertura foi conduzida pelo presidente do fórum e doutor em Metafísica pela UnB, desembargador Carlos Gustavo Direito, que declarou: ”A pergunta principal desse seminário é: ‘Por que revisitar Cícero no século XXI?’ Cícero viveu em uma República em crise, com instituições fragilizadas, linguagem pública esvaziada de sentido e violência disputando espaço com a lei. Foi nesse contexto que ele construiu uma obra que uniu Retórica, Filosofia e Direito, como instrumentos da tarefa de preservar a vida em comum. Ele nos ensinou que a lei não é mero artifício de poder. A razão suprema inscrita na natureza deve guiar e fundamentar a legislação dos povos para que se evitem normas injustas e violentas. Ele ensinou também que a República só existe onde há consenso jurídico e comunidades de interesses, e que a vida contemplativa nunca deve ser fuga da vida pública, mas preparação para melhor servi-la.”

A professora titular de História Romana Antiga da Unirio, Claudia Beltrão da Rosa, destacou: ”Quero agradecer ao desembargador Gustavo e à EMERJ. Vou apresentar os dois primeiros palestrantes, o professor de Literatura Grega na Sapienza Università di Roma, Giuseppe Lentini, e a professora de Filosofia e Ciências Humanas do Liceo Classico di Genova, Micol Perfigli, que se dedica ao estudo da religião romana e do imaginário religioso dos romanos.”

Palestrantes

A primeira palestra Tradurre Cicerone: una nuova edizione del De Natura Deorum, foi ministrada pelo professor associado da Sapienza Università di Roma Giuseppe Lentini, que relatou: “Foi muito importante revisitar o pensamento de Cícero e sua relação com a tradição filosófica grega, especialmente com Platão. A partir da análise de seu vocabulário político, podemos perceber como Cícero não apenas retoma conceitos da filosofia grega, mas também os traduz e adapta à realidade romana.”

A professora de Língua e Literatura Latina do Liceo Classico di Genova, na Itália, e doutora em Antropologia del Mondo Antigo pela Università degli Studi di Siena, Micol Perfigli, proferiu: “A reflexão é sobre traduzir, que é uma operação técnica, intelectual, que inclui aspectos de natureza emotiva. O texto adota uma metáfora, de natureza geométrica, em uma posição no espaço que necessariamente é modificado o modo no qual possa ser entendido. É uma operação necessária de modo que o tradutor possa dar um acesso cognitivo ao leitor. O empenho que o tradutor passa ao leitor representa uma relação complementar entre os dois. Para o tradutor, o empenho tem o peso da responsabilidade. Traduzir um texto de Cícero, uma ópera como De Natura Deorum, foi um desafio, uma responsabilidade por vários motivos, entre eles, a complexidade que é própria de traduzir uma língua antiga. Cícero escreve para os outros e os indivíduos envolvidos, originalmente, compartilham a mesma língua, o mesmo código social, as mesmas regras de comunicação. O tradutor conhece as regras do jogo.”

O professor titular de Filosofia Antiga do departamento de Filosofia (FIL) da UnB e doutor em Filosofia Antiga pela USP, Gabriele Cornelli, abordou o tema O Vocábulo da democracia: Cícero, tradutor de Platão, e enfatizou: ”Cícero traduziu Platão, seus diálogos, conceitos e vocabulário filosófico, em muitos casos um vocabulário inaugural tanto em Platão quanto em Cícero. Podemos imaginá-lo traduzindo Platão ao longo de sua vida. Acho que a competência dele como tradutor nunca esteve realmente em discussão. Sua educação foi basicamente em grego. O que ele tem como referência principal é Platão.”

O professor adjunto de Latim do departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas (LIP) da UnB e doutor em Letras Clássicas pela USP, Gilson Charles dos Santos, apresentou a palestra Lugares do argumento em Cícero e Boécio e expressou: "A base da minha apresentação tem o objetivo de identificar as diferenças que existem entre Cícero e Boécio na definição dos lugares do argumento. O objetivo é identificar essencialmente quais seriam os motivos pelos quais Boécio discordaria da definição que Cícero dá aos lugares do argumento em Latine Loqui.“   

No período da tarde, o professor de Direito Processual Civil e Direito Romano da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e doutor em Direito pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha, Renato Beneduzi, falou do tema A Noção de Estado de Direito em Cícero e acrescentou: ”Eu inicio apresentando o conceito de Estado de Direito, do ponto de vista do direito brasileiro, uma definição muito interessante que o ministro do STF Luiz Fux fez. Ele diz que a noção de Estado de Direito pressupõe a limitação do poder e da autoridade política por normas jurídicas, o que, a seu turno, só se revela possível a partir de mecanismos efetivos de tutela jurisdicional. A minha ideia é mostrar uma espécie de linhagem muito interessante entre esse conceito contemporâneo de Estado de Direito e uma linha histórica, que, na minha opinião, é muito marcada pelas ideias de Cícero.”

A professora adjunta da Universidad Nacional de La Plata, pesquisadora independente do CONICET (Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas) e doutora em Letras pela Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación pela Universidad Nacional de La Plata, na Argentina, María Emilia Cairo, apresentou a palestra Una nueva identidad para los ancianos en la res publica (Cicerón, Cato Maior de senectute, 66-84) e salientou: “Cato Maior está entre as últimas obras filosóficas de Cícero. O texto é dedicado ao seu fiel amigo Ático. Neste momento, os dois tinham mais de 60 anos. Cato Maior pode ser considerado um texto de caráter político, que propõe um papel específico para os idosos.”

No encerramento da programação, a professora titular da Université de Rouen Normandie, e doutora em Études Latines pela Université de Paris, de Sorbonne na França, Clara Auvray-Assayas, reforçou: “Foi uma grande satisfação participar deste encontro e poder refletir sobre a relação entre filosofia, religião e política no pensamento de Cícero. A aproximação entre o De natura deorum e o Timaeus permite observar como a reflexão sobre a natureza e a ordem do mundo está também relacionada à construção de uma nova compreensão do político.”

Assista

Para assistir na íntegra, acesse: https://www.youtube.com/watch?v=p2rf9tdMfj4 e https://www.youtube.com/watch?v=m9WC2zikMks

 

Fotos: Mariana Bianco

7 de agosto de 2026

Departamento de Comunicação Institucional (DECOM)