O Fórum Permanente de Estudos Clássicos, Direito e História da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ), a Universidade de Brasília (UnB), a UNESCO Chair e a Archai realizaram, nesta terça-feira (20), o webinar “Estudos Clássicos na Era da Inteligência Artificial e das Humanidades Digitais”.
O webinar contou com transmissão pela plataforma Zoom, tradução simultânea e tradução para a Língua Brasileira de Sinais (Libras).
Abertura
A abertura foi conduzida pelo presidente do fórum e doutor em Metafísica pela UnB, desembargador Carlos Gustavo Direito, que declarou: ”Esse encontro tem como objetivo discutir quais são as fronteiras decisivas do nosso tempo. Qual o impacto dos modelos generativos de inteligência artificial e das humanidades digitais sobre as letras clássicas, a Filosofia e o Direito? Eu percebo que hoje a academia se encontra diante de uma aceleração sem precedentes. Nós temos algoritmos que processam, reconstituem e categorizam fragmentos epigráficos em frações de segundo; isso vale para qualquer tipo de texto antigo, tradução. Mas esse deslumbramento operacional não deve nos afastar de riscos metodológicos e éticos do uso, às vezes, sem qualquer tipo de controle da inteligência artificial. Essa hipertrofia informacional vai criar uma ilusão de conhecimento em que, às vezes, só há uma agregação estatística e não um conhecimento verdadeiro. Isso exige um controle ético rigoroso que vá submeter esses sistemas a princípios de uma prudência moral. Esse é o ponto com que a Filosofia pode agregar fortemente no uso da inteligência artificial.”
O professor titular de Filosofia Antiga do Departamento de Filosofia da UnB e doutor em Filosofia Antiga pela Universidade de São Paulo (USP), Gabriele Cornelli, pronunciou: ”São dias de muita preocupação, não somente no Brasil, em razão de algo que é essencial para a questão da inteligência artificial e do mundo corporativo, que tem por trás as Big Techs: a defesa da democracia. Uma das maiores preocupações da nossa reflexão sobre os estudos clássicos é que os estudos clássicos pensam o passado a partir do presente. Qual o impacto das Big Techs para a democracia?”
Palestrantes
O encontro recebeu como palestrante o professor associado do Centro de Humanidades Digitais e Ciências Sociais da Universidade de Nagoya e doutor em Filosofia Antiga pela Universidade de Cambridge, Naoya Iwata, que proferiu: ”Quando a IA responde a uma questão sobre um texto antigo, eu sempre pergunto de onde vem a resposta? Eu sou historiador da Filosofia Antiga, não um cientista da computação, mas, desde 2023, eu desenvolvo o Humanitext Project, infraestrutura que conecta textos em grego e latim por meio de IA. O princípio do Humanitext é construir respostas a partir de passagens de edições críticas, cada uma com um identificador estável. Um clique abre o texto original, e verificar faz parte do design. O padrão não é a fluência, mas o caminho de volta para a fonte. “
A professora de Língua e Literatura Grega da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara e doutora em Letras Clássicas pela USP, Anise de Abreu Gonçalves D’Orange Ferreira, relatou: ”Eu vou abordar a motivação para usar os modelos de linguagem em grande escala (LLMs) na forma das IAs generativas. Esses grandes modelos de linguagem estão baseados na lógica das redes neurais artificiais, que são os transformers atualmente. Essa lógica concebe que a entrada de dados e todos os cálculos de seus pesos são processados simultaneamente, em vez de linearmente, simulando os neurônios. Eu diria que isso é a caixa-preta do sistema. Os transformers constituem a arquitetura dessa rede neural artificial. Um transformer recebe simultaneamente uma sequência de tokens, transforma cada token em vetores, adiciona informação de posição, processa a sequência por vários blocos, produzindo representações contextualizadas que permitem prever o próximo token. Os modelos LLM são treinados dessa forma com milhares de parâmetros. Por isso, conseguem desempenhar tarefas de processamento de linguagem natural, como gerar textos, seguir instruções e responder a perguntas.”
O diretor do Departamento de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e professor dos programas de Graduação e Pós-Graduação em Filosofia da PUC-Rio, Renato Matoso Brandão, complementou: ”Assim como Sócrates, que dialogava com os seus interlocutores, esses sistemas de inteligência artificial também dialogam com os usuários, eles são geralmente chatbots e possuem uma forma dialogal. A maneira como eles dialogam parece ser diametralmente oposta à maneira como Sócrates dialogava com seus interlocutores. A primeira pergunta que precisamos fazer em relação a isso é: os sistemas de IA podem nos enganar? Essa interação que temos com eles é confiável? Para responder a essa pergunta, tem que entender se os sistemas de inteligência artificial possuem estados mentais, intenções. Muitas pessoas dizem que um sistema de inteligência artificial não pode exatamente nos enganar porque não é muito claro se eles têm intenções próprias. Eles podem dar respostas equivocadas, mas será que eles querem nos enganar? Há uma série de evidências de que os sistemas de inteligência artificial, de fato, realizam algumas estratégias de engano.”
A professora adjunta do Departamento de Estudos Clássicos da University of Winnipeg, no Canadá, e doutora em Letras Clássicas pela USP, Flavia Vasconcellos Amaral, participou do evento como comentadora, e a coordenação da mesa-redonda ficou a cargo da professora de Língua e Literatura Grega da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutora em Letras Clássicas pela USP, Beatriz de Paoli.
Assista
Para assistir na integra, clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=vY4ZJD97dJw
20 de outubro de 2026
Departamento de Comunicação Institucional (DECOM)